Jornal de Saúde Ocular Comunitária 2009;1(1): 11-14
TRAUMA OCULAR
Avaliação e tratamento dos ferimentos oculares
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Karin Lecuona
Consultora, Divisão de Oftalmologia, Groote Schuur Hospital and University of Cape Town, Private Bag, Observatório, 7937, África do Sul.
Introdução
Ferimentos oculares são comuns. Muitos são de pouca importância, mas se não tratados rápida e apropriadamente podem levar a complicações que ameaçam a visão. Outros danos são sérios, e até mesmo com o cuidado de especialistas, a visão pode ser perdida. A prevenção da cegueira ocasionada por ferimentos oculares requer:
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prevenção de acidentes (promoção da saúde incluindo proteção)
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avaliação precoce do paciente (promoção da saúde e formação dos profissionais de saúde)
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avaliação correta (bons cuidados oftalmológicos básicos e primeiros socorros)
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encaminhamento imediato de ferimentos sérios que requerem cuidados de um especialista.

Desenhos feitos por criancas de escolas primárias de Zâmbia durante exercícios da pesquisa Pinte e Escreva supervisionados pelo Dr. Boeteng Wiafe e Victoria Francis
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Este homem estava cortando um tronco e uma lasca de madeira entrou no seu olho. Tengeni Banda
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Os olhos da menina foram queimados por mingau em ebulição. Rabecca Phiri
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O menino chutou uma bola no olho do amigo enquanto jogavam. Devies Phiri
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Alguém jogou um graveto no olho deste rapaz. Thresser Banda
Obtendo uma anamnese
A anamnese obtida após o trauma deve ser a mais precisa possível e deve incluir detalhes de:
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qualquer coisa que atingiu o olho.
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o que o paciente estava fazendo quando o olho foi acidentado.
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quaisquer tratamentos administrados.
É necessário atenção particular se um corpo estranho estiver envolvido ou se o ferimento tiver perfurado o globo. Por exemplo, uma história de um golpe no olho com um cabo de vassoura sugere trauma contuso, mas se a arma foi a ponta de um cabo de vassoura podre, deve-se procurar por um corpo estranho retido; se um soco foi a arma mas o agressor estava usando um anel, deve-se procurar por lacerações no globo assim como por contusão ou esmagamento das pálpebras e da órbita. Mordidas humanas, ou lesões penetrantes causadas por utensílios de cozinha sujos ou usados, podem causar infecção fulminante, e então o paciente deve ser tratado com antibióticos sistêmicos. Quando um metal bate noutro metal (tal como um martelo no cinzel), a velocidade do fragmento metálico é suficiente para deixar a menor das marcas na córnea, uma vez que ela percorre o globo em direção à cavidade vítrea, enquanto que partículas de um mecanismo a carvão se infiltram por si só no epitélio corneano como um corpo estranho. Corpos estranhos intraoculares, tais como vidro, podem ser inertes, mas a reação causada por um fragmento de cobre pode destruir a retina em questão de dias. Com lesões químicas, é importante saber o tipo de substância que causou a queimadura, e por quanto tempo a substância ficou em contato com o olho. Um irritante tal como a pimenta causaria desconforto, mas não um dano verdadeiro, queimaduras por ácidos alcalinos e hidrofluóricos são os mais perigosos, enquanto que queimaduras ácidas causadas por químicos com um pH baixo tendem a ser menos graves que as queimaduras por alcalóides.
Tratando as lesões oculares: resumo dos princípios do tratamento
A profilaxia para a infecção tetânica é requerida para um paciente com lacerações, particularmente se estas estiverem sujas.
Abrasões corneanas
Corpos estranhos corneanos podem ser removidos depois de anestesia tópica adequada sob amplificação com boa iluminação. Uma abrasão corneana é frequentemente causada por um dedo, resultando num olho extremamente dolorido, que pode ser examinado apenas depois da anestesia tópica ter sido instilada. A coloração por fluoresceína vai indicar um defeito epitelial (Figura 1). O tratamento é com antibiótico e oclusão ocular por um dia.

Figura 1. Abrasão corneana quando é corada por fluoresceína. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town
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Podem ocorrer danos à córnea quando se está soldando sem os óculos de proteção. Uma coloração pontilhada difusa é visível por toda a córnea quando tingida com fluoresceína, e os sintomas são semelhentes aqueles de uma abrasão corneana, mas normalmente acomete ambos os olhos. O cuidado é o mesmo das abrasões.
Lesão penetrante (lesão aberta do globo)
Qualquer lesão aberta do globo necessita de encaminhamento de emergência para um oftalmologista. Só deve ser colocada uma proteção sobre o olho lesionado - compressas oftalmológicas não devem ser usadas a fim de evitar qualquer pressão sobre o olho. Um globo rompido por um trauma contuso (ex. por um golpe ou soco) deve ser tratado da mesma maneira que uma lesão penetrante, mesmo se a lesão de ruptura for subconjuntival (Figura 2).

Figura 2. Laceração corneana com hérnia de íris tamponando a
lesão. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town
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Lacerações canaliculares e da pálpebra
Lacerações simples podem ser suturadas. Lacerações sépticas devem ser limpas e tratadas com antibióticos sistêmicos. Um atraso no fechamento primário pode ser aconselhável. Lacerações que envolvam as margens da pálpebra devem também ser encaminhadas para um oftalmologista que esteja familiarizado com a técnica de justaposição das margens da pálpebra com exata precisão. Lesões mediais do canto do olho devem ser acompanhadas para ver se há rasgos do canalículo inferior (pode ser usada uma sonda lacrimal). Se lesionado, o paciente deve ser encaminhado para um oftalmologista para reparo canalicular (Figura 3).

Figura 3. Margens da pálpebra laceradas devem ser justapostas
com precisão. Foto: Erhardt Kidson
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Hemorragia
Uma hemorragia subconjuntival é pouco comum depois de um trauma e pode ser cuidada conservadoramente (Figura 4). Entretanto, ocasionalmente pode ser o único sinal de um globo rompido, quando estiver associada a uma pressão intraocular (PIO) baixa e uma câmara anterior anormalmente profunda. Sangue na câmara anterior é chamado de hifema. Geralmente segue-se após uma lesão fechada e resulta da laceração da íris. A pupila pode estar dilatada. A maior parte dos hifemas desaparece num prazo de cinco a seis dias, com tratamento conservador. As complicações que ameaçam a visão oriundas de hifema são causadas por PIO elevada, a qual é tratada com acetazolamida oral (Diamox). Raramente é necessária a lavagem cirúrgica de um hifema, q qual possui riscos particulares devendo-se, portanto, utilizá-la somente em indicações específicas. Estas incluem:
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impregnação corneana oriunda de hifema persistente
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PIO aumentada em mais de 45 mmHg durante mais de quatro dias
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doença falciforme com falha da resolução do hifema e PIO aumentada.
O uso de aspirina aumenta ainda mais o risco de um sangramento dentro do olho, e pode ser diminuído com o uso de esteróides tópicos. Os pacientes devem ser orientados a evitar drogas anti-inflamatórias não-esteróides durante uma semana após o hifema. Hemorragia vítrea é um sinal de trauma intraocular sério, e é caracterizado pela perda do reflexo vermelho comparado com o outro olho. Todos os casos de hemorragia vítrea devem ser encaminhados para exames adicionais a fim de excluir uma ruptura do globo, perfuração, ou outras complicações que possam ameaçar a visão, tal como o descolamento de retina (Figura 5 & 6).

Figura 4. Hemorragia subconjuntival e pequena laceração
estavam encobrindo uma laceração escleral. Foto: Thilly Lecuona
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Figura 5. Múltiplas feridas cortantes de pele após acidente com um copo quebrado. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town.
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Figura 6. Laceração escleral. No mesmo
paciente da figura 5, a coloração acastanhada
abaixo do limbo é um prolapso da íris através da
laceração escleral. Uma hifema está presente,
obstruindo a visão da pupila. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town.
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Lesão do cristalino
O cristalino pode sofrer subluxação ou até mesmo deslocamento (luxação). A pressão intraocular pode aumentar na fase aguda e uma extração do cristalino pode ser indicada. Tanto uma lesão fechada quanto uma perfuração pode justificar a extração da catarata, tanto logo após a lesão, se esta estiver causando complicações, como mais tarde, quando o olho já estiver calmo e recuperado da lesão.
Lesões da órbita
Proptose ou diplopia (visão dupla) sugerem uma lesão ocular séria, para a qual são requeridos uma avaliação e cuidados de um especialista.
Queimaduras do olho
As queimaduras oculares podem afetar as pálpebras, conjuntiva ou córnea. É importante manter a córnea umidecida e não exposta. Os primeiros socorros consistem em aplicar pomada antibiótica generosamente por toda a conjuntiva, córnea e pálpebras queimadas. Um curativo ocular não deve ser colocado sobre o olho pois pode ulcerar a córnea. O paciente pode precisar de um enxerto de pele nas pálpebras.
Tabela 1. Definições dos termos utilizados para descrever as lesões oculares
Substâncias químicas nos olhos
Os primeiros socorros em caso de substâncias químicas nos olhos são urgentes, devendo-se lavar abundantemente os olhos com água limpa após a administração local de gotas anestésicas. O paciente deve estar deitado - durante pelo menos 15 minutos - durante a administração abundante de água nos olhos (ver página 20). Após este período, os olhos podem ser examinados com fluoresceína de forma a verificar se existe ulceração da córnea. Em caso afirmativo, o paciente deve ser tratado com antibióticos tópicos, utilizar oclusão ocular e ser visto diariamente. Muitas queimaduras químicas são provocadas por ação dos ácidos (ex.: explosão de uma bateria de carro). Frequentemente o prognóstico é bom, uma vez que os danos provocados pelos ácidos apenas atingem a camada superficial da córnea. As queimaduras provocadas pelo alcali (ex.: amoníaco) são menos comuns mas muito mais graves. Devem ser acompanhadas por um oftalmologista, uma vez que requerem a utilização intensa de esteróides tópicos, tetraciclina e gotas de vitamina C.
Remoção do olho - evisceração ou enucleação?
Se o olho não tem percepção luminosa e é doloroso, deve-se considerar a hipótese da remoção do olho. Crê-se que com a evisceração existe o risco de oftalmia simpática, mas existem poucas evidências para fundamentar esta afirmação. A evisceração pode ser mais apropriada (para condições não malignas) em países em desenvolvimento, uma vez que os procedimentos são mais simples do que os da enucleação, oferece melhores resultados estéticos com menor risco de surgir uma infecção sistêmica no caso do olho estar infectado. A evisceração também pode ser realizada sob anestesia local.
Em resumo
Lidar com um trauma ocular é um desafio. As competências clínicas e cirúrgicas e os equipamentos variam de local para local e de país para país, sendo que o manejo de uma lesão ocular grave requer uma variedade de estratégias alternativas. Em princípio, se um profissional da saúde pode diagnosticar e tratar uma condição e reconhecer as complicações, então ele poderá tratar esse tipo de caso.
As abrasões corneanas, conjuntivais, tarsais, corpos estranhos corneanos superficiais e as pequenas lacerações nas pálpebras (não envolvendo as margens das pálpebras) podem ser tratadas por médicos generalistas. As lesões (tais como os corpos estranhos corneanos profundos e os hifemas grandes) devem ser tratadas nos centros onde é possível realizar exames da intra-ocular (PIO). As lesões abertas do globo ocular, as lacerações nas pálpebras (envolvendo a margem das pálpebras ou canalículos), as fraturas violentas com diplopia na posição primária e qualquer corpo estranho intra-ocular potencial devem ser tratados num centro oftalmológico bem equipado.
Os riscos mais comuns no tratamento do trauma ocular são:
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os corpos estranhos tarsais não encontrados (Figura 7);
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os corpos estranhos intra-oculares não encontrados;
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a confusão entre úlceras corneanas com abrasões;
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lacerações e rupturas esclerais não encontradas; lesões cranianas não encontradas em caso de traumatismo de órbita penetrante (Figuras 8 e 9).

Figura 7. Quando um paciente reclama de
um aparecimento súbito de prurido (coceira)
no olho, e não é encontrado nenhum corpo
estranho corneano, a pálpebra deve ser evertida
para verificação de algum corpo estranho. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town
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Figuras 8 & 9. Uma punhalada na margem
lateral da órbita resultou em penetração
craniana e um pneumocrânio, como
mostrado na Tomografia Computadorizada. Foto:
Karin Lecuona/Dept. of Ophthalmology University of Cape Town
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Este editorial apresenta as diretrizes básicas sobre a avaliação e tratamento do trauma ocular. Os médicos poderão lidar com os pacientes de forma diferente, de acordo com a disponibilidade de equipamentos, as competências, os financiamentos e os meios de transporte locais.
Tabela 2. Sinais oculares e suas implicações após o trauma ocular




